NÃO EM MEU NOME… SEJA LÁ QUAL FOR!

Até que ponto é permitido reproduzir ou anular expressões culturais, políticas ou sociais de outrem? Será sempre necessária a prévia autorização? Ou, no caso da anulação, declaração de incapaz? E se forem coletivas? Quem tem o poder de validar ou invalidar as manifestações de uma comunidade?

Em São Leopoldo, região metropolitana de Porto Alegre, membros das CEBs e da Pastoral da Juventude da paróquia Santo Inácio saíram na fria madrugada de inverno gaúcho da última quinta-feira (26/05/2016) para fazer o tapete de Corpus Christi, tradicional na cultura católica romana. Ato piedoso e digno de simples menção, entre tantas comuns a essa data, não fosse a ousada iniciativa do grupo. Para denunciar o golpe em marcha no país, eles produziram a arte abaixo:

2016 - Golpe Corpus Christi 4

Foto: Neusa Figueira Silva

Dentro de um mundo plural (católico = universal), nada mais profético. Porém, outros membros da mesma paróquia consideraram prudente silenciar o protesto, apagando-o e escrevendo “luz” por cima dele:

2016 - Golpe Corpus Christi 2

Foto: Jéssica F. Gonçalves/Tiago Greff

O tapete conduzia à porta da Igreja central do município (N. Sra. Da Conceição). Poucas horas depois, um dos responsáveis assumiu a autoria pela internet: “Apenas queria deixar claro que isso (essas imagens) foi feito sem autorização. Por isso peço que não vinculem com a paróquia. Nos mantemos neutros quanto a opiniões sobre esse assunto. Esse não era nem momento e nem local para esse tipo de manifestação. Por isso, providências foram tomadas, apagando esse ato vergonhoso”.

O caso lembra um episódio bíblico em que os apóstolos impedem um homem de expulsar demônios em nome de Jesus e depois vêm correndo contar o fato ao Mestre (Mc 9,38). Deviam estar eufóricos. Mas tomam um balde de água fria: “Não o impeçam, pois não há ninguém que faça milagre em meu nome e logo depois possa falar mal de mim. Porque quem não é contra nós é por nós” (vv.39-40). Que tapa de pelica! A resposta traz alguns recadinhos à patrulha da fé: 1) Jesus e sua proposta não precisam de defensores/patrulheiros; 2) Fazer intriga é coisa de gente insegura; 3) O verdadeiro testemunho não se dá por palavras, mas pelos atos (expulsar demônios). De fato, no Evangelho de João está escrito: “Nisso reconhecerão que vocês são meus discípulos e discípulas: se vocês tiverem amor uns pelos outros!” (Jo 13,35). Ele não disse: “se professarem sua fé em mim”; ou: “se andarem com a minha turminha”. Mesmo em Marcos, alguns versículos antes da fofoquinha apostólica, ele diz: “Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último e o servo de todos” (v.35); e emenda: “Quem receber um destes pequeninos por causa do meu nome, a mim recebe; e quem me recebe, não recebe a mim, mas àquele que me enviou” (v.37).

Não resta dúvida: equivoca-se quem pensa prestar culto a Deus silenciando as pessoas que acreditam agir em seu Nome. Quem o faz deveria assumir: é meu nome – e não o de Deus – que está em xeque! Até porque o próprio Cristo nos lembra: “Se Satanás expulsa a Satanás, como poderá subsistir o seu reinado? E se eu expulso os demônios por Beelzebu, por quem os expulsam os vossos adeptos? Por isso, eles mesmos serão os vossos juízes” (Mt 12,26-27).

Vale, ainda, lembrar que o silenciamento é uma das formas de violência e extermínio de jovens. Não é só fisicamente que se mata uma pessoa. Quando sua voz é anulada, é como se ela fosse proibida de existir. Para mudar essa situação, é preciso criar meios de romper com a invisibilidade social. Ao compor “Cálice”, Chico Buarque e Gilberto Gil talvez não imaginassem o sucesso que ela faria como símbolo da resistência contra a ditadura. Registre-se que a reação dos militares contribuiu muito para isso. Mas o mérito mesmo foi dos autores, que burlaram a censura. A linguagem apocalíptica foi eficaz para alimentar tanto a resistência das primeiras comunidades cristãs quanto a da juventude brasileira das décadas de 60 e 70. Essa talvez seja a saída para um novo momento em nosso país, onde a repressão parece querer voltar a todo custo. Quem sabe a imagem logo abaixo nos inspire. Criatividade o nosso povo tem de sobra.

2016 - Golpe Corpus Christi 1

Foto: PJ Nacional

27/05/2016 at 23:32 6 comentários

Primeiros passos CEBI-Uruguaiana

Passados três meses do primeiro encontro assessorado pelo CEBI em Uruguaiana, um núcleo foi criado e já realizou dois encontros, conforme relatado abaixo por Giovani Moreira, um dos articuladores do movimento:

“Nos dias2016 - CEBI 2 20/03 e 17/04 aconteceram o 1º e 2º encontro do Núcleo do Cebi Jovem Uruguaiana. O primeiro encontro abordou a temática sobre a Campanha da Fraternidade Ecumênica 2016, iluminados pelo texto bíblico do profeta Amós: “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Am 5. 24). Já o segundo encontro foi embasado pelos livros de estudo do Cebi, com 2016 - CEBI 5a temática: “Bíblia do povo, sinal de vida”. Foram lindas as partilhas produzidas. O entusiasmo apresentado pelas juventudes presentes, demonstrando querer caminhar mais nessa nova empreitada.

Os encontros, para começo, são realizados junto das juventudes da Associação Utopia. Grupo que trabalha com as juventudes em vulnerabilidade social de Uruguaiana. Daqui para 2016 - CEBI 3frente outros e outras jovens serão convidados e convidas a se juntar nessa caminhada. Passo-a-passo os processos estão acontecendo. Descobrindo o que é o Cebi e como as juventudes populares e o povo de Deus enxergam a Jesus Cristo e como esse Cristo homem se apresentou na história e se apresenta hoje em nossas realidades.”

 
O que se espera é que o grupo cresça e que a Leitura Popular da Bíblia possa ser cada vez mais divulgada e transformadora das diversas realidades do povo gaúcho e brasileiro.

15/05/2016 at 15:26 Deixe um comentário

Pela páscoa de Irene Bohn Gass

Com fé e esperança no Ressuscitado, informamos que faleceu nesta quarta-feira (04/05), em Santo Cristo/RS, Irene, irmã do secretário de formação do CEBI Nacional e membro do CEBI-Vale, Ildo Bohn Gass.

Ela estava doente, mas, mesmo debilitada, manteve sempre a esperança, buscando animar as pessoas que estavam à sua volta. Assim nos relataram o Ildo e o seu irmão, Waldir, também companheiro de caminhada do CEBI-RS.

Queremos nos unir em oração e solidariedade à sua família, que soma, neste momento, a dor pela perda de uma ente querida à revolta, indignação, esperança, amor e tantos outros sentimentos que animam sua luta diária contra os inimigos da democracia brasileira. Seja pela militância popular no CEBI, seja pelo confronto direto no Congresso Nacional (especialmente através do irmão e Dep. Federal, Elvino), a família Bohn Gass tem influência direta nos movimentos de resistência ao golpe em curso no país. Solidárias e solidários, desejamos reafirmar nossa esperança de que um dia estaremos novamente reunidas e reunidos no Reino que o Senhor preparou para nós.

Nas palavras do próprio Ildo: “Amigas e amigos, agradeço a sintonia e a força de vocês nesse momento difícil para a família Bohn Gass. Hoje de manhã (05/05), devolvemos à terra, como boa semente, a minha irmã. Irene tinha 62 anos e veio a falecer depois de dois anos de luta contra um câncer. ‘As pessoas que ensinam a justiça a muitos brilharão, para sempre, como estrelas no céu’ (Dn 12,3). Beijo no coração.”

À família Bohn Gass nosso caloroso e solidário abraço.

Coordenação CEBI-RS

06/05/2016 at 21:21 Deixe um comentário

SOUC 2016: Carta das Igrejas-Membro do CONIC

“Chamados e chamadas para proclamar os altos feitos do Senhor” (1Pe2.9). Este é o lema bíblico que inspira a Semana de Oração pela Unidade Cristã 2016.

A Semana de Oração foi preparada pelas Igrejas da Letônia. Participaram diretamente do processo de elaboração do material as Igrejas: Católica Apostólica Romana, Luterana, Ortodoxa e Batista.

O povo letão, no final do século XIX e primeira metade do século XX, foi obrigado a migrar por ocasião da ocupação russa. Parte dessa migração ocorreu por causa da perseguição religiosa. A Letônia foi submissa aos czares, que tentaram impor a religião oficial como expressão de fé. As pessoas de outras expressões religiosas, entre elas Judaísmo, Cristianismo (catolicismo e protestantismo) e o Islã, foram perseguidas.

Essa realidade mudou com o passar do tempo. Hoje, a Letônia é bem diferente. É possível o convívio entre diferentes expressões de fé. A realização e preparação da Semana de Oração pela Unidade é o exemplo concreto disso.

Nossos irmãos e nossas irmãs da Letônia escolheram o texto do apóstolo Pedro, que lembra que nós, pessoas batizadas, somos “chamados e chamadas a proclamar os altos feitos do Senhor”. Proclamar os altos feitos de Deus significa não esquecermos a perspectiva de que através do Batismo que somos declarados filhos e filhas de Deus. O Batismo jamais deve ser banalizado. Ele é um sacramento que nos apresenta o desafio permanente de praticarmos e proclamarmos o amor gratuito de Deus pela humanidade. Uma das formas de proclamar esse amor é assumindo posturas de diálogo e de acolhida, em especial, com as pessoas que são diferentes de nós: de outras igrejas, religiões e culturas.

O ano de 2015 foi caracterizado pelas ondas migratórias. Também no início deste ano, vimos, na Europa, migrantes e refugiados desesperados em busca de novas condições de vida. Seus países foram destruídos por guerras e catástrofes ambientais. Alguns países optaram por fechar suas fronteiras para evitar a entrada de migrantes. Outros estão pensando nessa possibilidade.

No Brasil, a situação não é tão dramática como é na Europa. Mas também aqui aumentou o número de pessoas migrantes e refugiadas. Muitas delas buscam o nosso país na esperança de encontrar amparo e resgatar a dignidade de vida. Infelizmente, no ano de 2015, alguns migrantes foram agredidos e sofreram preconceito. Atitudes racistas e preconceituosas não são coerentes com os altos feitos de Deus. Também é oportuno lembrar que é expressivo o número de grupos étnicos que, em tempos idos, vieram ao Brasil por razões de fome e guerra, aqui encontrando acolhida e amparo.

O Batismo nos conclama ao respeito pelo migrante. Mais do que tolerantes, precisamos ser respeitosos. A tolerância deveria ser uma convicção passageira. Ela deveria conduzir ao reconhecimento do direito à dignidade que é inerente a cada ser humano.

Somos chamados e chamadas a proclamar os altos feitos do Senhor! Que essa proclamação se traduza em posturas de diálogo, acolhida e respeito para com aquelas pessoas que vêm ao nosso país em busca de novas oportunidades de vida.

Que nossas Igrejas sejam motivadas para esse testemunho permanente de acolhida!

Na unidade de Cristo,

Dom Leonardo Ulrich Steiner (Secretário Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil)
Pastor Dr. Nestor Paulo Friedrich (Pastor Presidente da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil)
Dom Francisco de Assis da Silva (Bispo Primaz da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil)
Presbítero Wertson Brasil de Souza (Moderador da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil)
Dom Paulo Titus (Arcebispo da Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia)

Confira o cartaz da SOUC 2016:

logo souc definitiva

Proclamai os altos feitos do Senhor” (1Pe 2,9) é o tema da Semana de Oração deste ano. A proposta foi elaborada pelo movimento ecumênico da Letônia e adaptado para o Brasil pelo Movimento Ecumênico de Curitiba (MOVEC).

E-mail específico para a SOUC 2016

Para assuntos relativos à SOUC, o CONIC criou um e-mail específico (inclusive para pedidos de materiais): souc2016@gmail.com.

30/03/2016 at 00:27 Deixe um comentário

Lideranças reafirmam defesa da democracia em ato no Parque da Redenção em Porto Alegre

WP_20160313_005Milhares de pessoas, oriundas de várias partes do estado do RS, integrantes de movimentos sociais, participaram no último domingo (13) do ato promovido e convocado pela Frente Brasil Popular em apoio à democracia e contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, eleita legitimamente pelo povo brasileiro em outubro/2014.

O ato teve início ao meio dia com o tradicional “coxinhaço” como forma de ironizar o protesto paralelo que ocorreu no Parcão no bairro Moinhos de Ventos. Na continuidade, teve manifestações de apoio ao ex-presidente Lula, e palavras de ordem “contra o golpe”.WP_20160313_001

Além dos deputados federais e estaduais, o ato ainda contou com a participação do ministro
do Trabalho e Previdência Social, Miguel Rossetto, e dos ex-governadores Olívio Dutra e Tarso Genro. Cada liderança, na sua fala, foi enfática na defesa da democracia e da legalidade de um mandato popular. Nada justifica uma campanha de ódio que busca derrubar a vontade popular.

WP_20160313_003Para animar a tarde o Bloco da Diversidade cantou marchinhas e canções populares com a letra modificada para o contexto político. Confira as fotos:

“Não vai ter golpe, vai ter luta!” Avante!

Por: Ezequiel Hanke (REJU e CEBI-RS)

15/03/2016 at 21:51 Deixe um comentário

CEBI-RS chega à fronteira – Uruguaiana

2016.02.PJUruguaiana IIDe 12 a 14 de fevereiro, o CEBI-RS marcou presença na assessoria de um encontro da Pastoral da Juventude da ICAR. Foram momentos de muita leitura, muita partilha, mas também de descontração e animação, como normalmente acontece em encontros de jovens. Contudo, a novidade ficou por conta do local: Uruguaiana/RS.

Há tempos o CEBI-RS intentava chegar ao extremo oeste do Estado. A distância, porém, vinha sendo uma das dificuldades. Para se ter uma ideia, a distância até Porto Alegre é a mesma da capital gaúcha até Curitiba/PR. Além disso, havia o problema da falta de contato com grupos ou pessoas ligadas às Igrejas da região.

Felizmente, um único contato foi o suficiente para uma aproximação. Assim, acolhido por Jorge Martins Filho, referencial das pastorais sociais da Diocese, e Giovani Moreira, assessor da PJ-ICAR diocesana, José Luiz Possato Jr. esteve entre as/os jovens para falar sobre Leitura Popular da Biblia.

O primeiro momento foi de apresentar o CEBI e falar sobre o ecumenismo. Satisfeitas as curiosidades (o assunto era novidade para a maioria dos participantes), passou-se aos tipos de hermenêuticas juvenis. É possível procurar jovens na Bíblia? O grupo descobriu que as palavras normalmente traduzidas por “jovem” normalmente indicam mais a condição social do que etária das personagens. Até porque juventude, enquanto categoria, é um termo muito recente, pós-revolução industrial. O mais plausível, portanto, quando se fala em hermenêutica juvenil, é ler os textos bíblicos a partir de uma ótica juvenil, ou seja, a partir de uma leitura feita, não PARA, mas PELOS próprios grupos juvenis.

Com isso em mente, o grupo estudou o texto de Marcos sobre o jovem rico (Mc 10,17-22) e seus paralelos nos sinóticos (Mt 19,16-22; Lc 18,18-23). Primeira constatação: não se tem certeza sobre a idade ou origem do personagem que se aproxima de Jesus (em Mateus, é “um certo alguém”; em Lucas, “um chefe do povo”). Sabe-se apenas que ele é muito rico. Após mergulhar no texto, a juventude fronteiriça ficou maravilhada quando se deu conta que pouco importa a identidade do jovem/homem rico. Eles perceberam que a vida eterna não se conquista (herança é graça) e que, se somos impelidas/os à ação, devemos partilhar, assim como os hebreus fizeram com o maná no deserto, como as primeiras comunidades fizeram aos pés dos apóstolos. “Não haja pobres entre vocês!” (Dt 15,4). Este era o mandamento que faltava o rico observar. Ele ficou triste porque entendeu: quem acumula dificilmente está a serviço da vida. O acúmulo gera riqueza de poucos e morte de muitos.

Cientes de que não deviam se apegar à idade do interlocutor de Jesus, mas ao que dizia a Escritura, as/os participantes passaram a debater sua realidade. Há jovens morrendo por causa da ganância de gente muito poderosa. Como isso se dá em Uruguaiana, Alegrete, Itaqui e São Borja (cidades presentes ao encontro)? O que é possível fazer?

Apesar de ser um grupo de jovens lideranças, as/os encontristas, sem2016.02.PJUruguaiana I ignorar esse problema bem concreto, sentiam ainda mais urgente a necessidade de discutir sua situação eclesial. Como se colocar a serviço do Reino se ainda falta conquistar espaço em suas próprias comunidades? Sendo assim, decidiram que querem mais encontros para discutir sua realidade, iluminados por outros textos bíblicos. O próximo será em data ainda a definir (certamente no segundo semestre de 2016), tendo o grupo se comprometido a pensar previamente alternativas para a solução de seus problemas.

O mais importante, porém, foi a aproximação. A gurizada da fronteira ficou empolgada com a leitura popular, com o método do CEBI. Querem novas experiências, mesmo percebendo que a Palavra, lida dessa maneira, não fica sem efeito, sem a exigência de uma ação. Uruguaiana, Alegre, Itaqui e São Borja certamente não serão as mesmas depois desse contato, assim como daqui para frente teremos um novo rosto para o CEBI-RS.

16/02/2016 at 15:55 Deixe um comentário

Sobre a Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2016

Elementos para uma reflexão sobre a CFE 2016 (texto retirado do site da CNBB Sul 3).

A alegria pela IV Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE)

CFE 20161. As Igrejas que integram o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC) assumem como missão expressar em gestos e ações o mandato evangélico da unidade, que diz: “Que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti; que também eles estejam em nós, a fim de que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17,21).

2. O testemunho ecumênico coloca-se na contramão de todo tipo de competição e de proselitismo, tão frequentes no nosso contexto religioso. É uma clara manifestação de que a paz é possível. É um apelo dirigido a todas as pessoas religiosas e de boa vontade para que contribuam com as suas capacidades para a promoção do diálogo, da justiça, da paz e do cuidado com a criação. É, também, uma comprovação de que Igrejas irmãs são capazes de repartir dons e recursos na sua missão.

3. A caminhada ecumênica realizada pelo CONIC tem mais de três décadas. É uma trajetória marcada por fraternidade, confiança, parceria e protagonismo. Dessa trajetória, podem ser destacados como expressões concretas de comunhão fraterna as três Campanhas da Fraternidade Ecumênicas, realizadas nos anos 2000, 2005 e 2010. Todas elas marcaram profundamente a vida das Igrejas que nelas se envolveram.

4. A motivação para essas Campanhas fundamentou-se na compreensão de que, no centro da vivência ecumênica está a fé em Jesus Cristo. Isso se deu porque o movimento ecumênico está marcado pela ação e pelo desafio de construir uma Casa Comum (oikoumene) justa, sustentável e habitável para todos os seres vivos. Essa luta é profética, pois questiona as estruturas que causam e legitimam vários tipos de exclusão: econômica, ambiental, social, racial, étnica. São discriminações que fragilizam a dignidade de mulheres e homens.

5. É exatamente isso que acontece quando, neste ano, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) coloca outra vez à disposição do CONIC a Campanha da Fraternidade, seu mais conhecido projeto de evangelização.

6. Com esse espírito, no ano 2000, na virada do milênio e no contexto do Grande Jubileu, foi realizada a primeira Campanha da Fraternidade Ecumênica com o tema “Dignidade Humana e Paz” e com o lema “Novo Milênio sem Exclusões”. No ano de 2005, foi realizada a segunda Campanha da Fraternidade Ecumênica. O tema foi “Solidariedade e Paz” e o lema: “Felizes os que promovem a paz”. A Campanha Ecumênica de 2010 provocou o debate sobre o papel da economia na sociedade. O tema foi “Economia e vida” e foi aprofundado com o lema bíblico “Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro” (Mt 6,24c).

7. A Campanha da Fraternidade de 2016 apresenta o tema “Casa Comum, nossa responsabilidade” e tem como lema: “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Am 5,24). O objetivo principal é assegurar o direito ao saneamento básico para todas as pessoas e empenharmo-nos, à luz da fé, por políticas públicas e atitudes responsáveis que garantam a integridade e o futuro de nossa Casa Comum.

8. Nesse tema e nesse lema, duas dimensões básicas para a subsistência da vida são abarcadas a um só tempo: o cuidado com a criação e a luta pela justiça, sobretudo dos país pobres e vulneráveis. Nessa Campanha da Fraternidade Ecumênica, queremos instaurar processos de diálogo que contribuam para a reflexão crítica dos modelos de desenvolvimento que têm orientado a política e a economia. Faremos essa reflexão a partir de um problema específico que afeta o meio ambiente e a vida de todos os seres vivos, que é a fragilidade e, em alguns lugares, a ausência dos serviços de saneamento básico em nosso país.

9. Perguntamos: como estão estruturadas as nossas cidades? Quem realmente tem acesso ao saneamento básico? No ano de 2014, o sudeste do Brasil viveu uma das maiores crises hídricas já registradas na história recente do país. Quem foi responsabilizado por isso? Por que os serviços de saneamento básico, considerados como direito humano básico pela Organização das Nações Unidas estão em disputa?

10. Com essa CFE colocamo-nos em sintonia com o Conselho Mundial de Igrejas e também com o Papa Francisco. Ambos têm chamado a atenção para o fato de que o atual modelo de desenvolvimento está ameaçando a vida e o sustento de muitas pessoas, em especial as mais pobres. É um modelo que destrói a biodiversidade. A perspectiva ecumênica aponta para a necessidade de união das Igrejas diante dessa questão. Nossa Casa Comum está sendo ameaçada. Não podemos, portanto, ficar calados. Deus nos convoca para cuidar da sua criação. Promover a justiça climática, assumir nossas responsabilidades pelo cuidado com a Casa Comum e denunciar os pecados que ameaçam a vida no planeta é a missão confiada por Deus a cada um e cada uma de nós.

11. É uma alegria compartilhar que nessa CFE, além das cinco Igrejas que integram o CONIC, somaram forças também: a Aliança de Batistas do Brasil, o Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (CESEEP) e a Visão Mundial. Outra novidade é que a IV Campanha da Fraternidade Ecumênica será internacional, porque a Misereor, organização dos bispos católicos alemães para a cooperação e o desenvolvimento, integrou-se nesse mutirão. Nossa oração e desejo é que mais Igrejas e religiões entrem nessa caminhada.

17/11/2015 at 20:25 Deixe um comentário

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