NÃO EM MEU NOME… SEJA LÁ QUAL FOR!

27/05/2016 at 23:32 6 comentários

Até que ponto é permitido reproduzir ou anular expressões culturais, políticas ou sociais de outrem? Será sempre necessária a prévia autorização? Ou, no caso da anulação, declaração de incapaz? E se forem coletivas? Quem tem o poder de validar ou invalidar as manifestações de uma comunidade?

Em São Leopoldo, região metropolitana de Porto Alegre, membros das CEBs e da Pastoral da Juventude da paróquia Santo Inácio saíram na fria madrugada de inverno gaúcho da última quinta-feira (26/05/2016) para fazer o tapete de Corpus Christi, tradicional na cultura católica romana. Ato piedoso e digno de simples menção, entre tantas comuns a essa data, não fosse a ousada iniciativa do grupo. Para denunciar o golpe em marcha no país, eles produziram a arte abaixo:

2016 - Golpe Corpus Christi 4

Foto: Neusa Figueira Silva

Dentro de um mundo plural (católico = universal), nada mais profético. Porém, outros membros da mesma paróquia consideraram prudente silenciar o protesto, apagando-o e escrevendo “luz” por cima dele:

2016 - Golpe Corpus Christi 2

Foto: Jéssica F. Gonçalves/Tiago Greff

O tapete conduzia à porta da Igreja central do município (N. Sra. Da Conceição). Poucas horas depois, um dos responsáveis assumiu a autoria pela internet: “Apenas queria deixar claro que isso (essas imagens) foi feito sem autorização. Por isso peço que não vinculem com a paróquia. Nos mantemos neutros quanto a opiniões sobre esse assunto. Esse não era nem momento e nem local para esse tipo de manifestação. Por isso, providências foram tomadas, apagando esse ato vergonhoso”.

O caso lembra um episódio bíblico em que os apóstolos impedem um homem de expulsar demônios em nome de Jesus e depois vêm correndo contar o fato ao Mestre (Mc 9,38). Deviam estar eufóricos. Mas tomam um balde de água fria: “Não o impeçam, pois não há ninguém que faça milagre em meu nome e logo depois possa falar mal de mim. Porque quem não é contra nós é por nós” (vv.39-40). Que tapa de pelica! A resposta traz alguns recadinhos à patrulha da fé: 1) Jesus e sua proposta não precisam de defensores/patrulheiros; 2) Fazer intriga é coisa de gente insegura; 3) O verdadeiro testemunho não se dá por palavras, mas pelos atos (expulsar demônios). De fato, no Evangelho de João está escrito: “Nisso reconhecerão que vocês são meus discípulos e discípulas: se vocês tiverem amor uns pelos outros!” (Jo 13,35). Ele não disse: “se professarem sua fé em mim”; ou: “se andarem com a minha turminha”. Mesmo em Marcos, alguns versículos antes da fofoquinha apostólica, ele diz: “Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último e o servo de todos” (v.35); e emenda: “Quem receber um destes pequeninos por causa do meu nome, a mim recebe; e quem me recebe, não recebe a mim, mas àquele que me enviou” (v.37).

Não resta dúvida: equivoca-se quem pensa prestar culto a Deus silenciando as pessoas que acreditam agir em seu Nome. Quem o faz deveria assumir: é meu nome – e não o de Deus – que está em xeque! Até porque o próprio Cristo nos lembra: “Se Satanás expulsa a Satanás, como poderá subsistir o seu reinado? E se eu expulso os demônios por Beelzebu, por quem os expulsam os vossos adeptos? Por isso, eles mesmos serão os vossos juízes” (Mt 12,26-27).

Vale, ainda, lembrar que o silenciamento é uma das formas de violência e extermínio de jovens. Não é só fisicamente que se mata uma pessoa. Quando sua voz é anulada, é como se ela fosse proibida de existir. Para mudar essa situação, é preciso criar meios de romper com a invisibilidade social. Ao compor “Cálice”, Chico Buarque e Gilberto Gil talvez não imaginassem o sucesso que ela faria como símbolo da resistência contra a ditadura. Registre-se que a reação dos militares contribuiu muito para isso. Mas o mérito mesmo foi dos autores, que burlaram a censura. A linguagem apocalíptica foi eficaz para alimentar tanto a resistência das primeiras comunidades cristãs quanto a da juventude brasileira das décadas de 60 e 70. Essa talvez seja a saída para um novo momento em nosso país, onde a repressão parece querer voltar a todo custo. Quem sabe a imagem logo abaixo nos inspire. Criatividade o nosso povo tem de sobra.

2016 - Golpe Corpus Christi 1

Foto: PJ Nacional

Anúncios

Entry filed under: CEBI-RS.

Primeiros passos CEBI-Uruguaiana Contra a Cultura do Estupro

6 Comentários Add your own

  • 1. Maria  |  27/05/2016 às 23:51

    Que ótimo!!!! Parabéns pelo comentário e discussão provocada. Misericórdia sempre, Temer jamais!!!!

    Responder
  • 2. Anônimo  |  28/05/2016 às 08:11

    Parabéns ao texto. Perfeito em suas sabias palavras.

    Responder
  • 3. Adriano Xavier (@adrianoxavier_)  |  28/05/2016 às 23:16

    Sobre o caso:
    1) Adoração segundo o CIC: Adorar a Deus é, no respeito e na submissão absoluta, reconhecer ‘o nada da criatura’, que não existe a não ser por Deus. Adorar a Deus é, como Maria no Magnificat, louvá-lo, exaltá-lo e humilhar-se a si mesmo, confessando com gratidão que ele fez grandes coisas e que seu nome é santo. Adoração do Deus único liberta o homem de se fechar em si mesmo, da escravidão do pecado e da idolatria do mundo.” (2096, 2097)
    2) O que é o dia de Corpus Christi: Nesta festa os fiéis agradecem e louvam a Deus pelo inestimável dom da Eucaristia, na qual o próprio Senhor se faz presente como alimento e remédio de nossa alma. A Eucaristia é fonte e centro de toda a vida cristã. Nela está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, o próprio Cristo. (Cléofas)
    É direito de cada indivíduo se expressar, no tempo, lugar e de maneira oportuna. O ato abaixo apenas revela falta de conhecimento da doutrina e, acima de tudo, falta de bom senso.

    Responder
  • 4. Antonio  |  29/05/2016 às 07:52

    “Não cairemos no erro histórico de semear o caminho com mártires cristãos, pois bem sabemos que foi precisamente o martírio que deu força à Igreja. Nós faremos apóstatas, milhares de apóstatas” ( cf. Juan Clark, “Cuba: mito e realidade”, Edições Saeta, Miami-Caracas, 1ª. ed. 1990, páginas 358 e 658).

    Responder
    • 5. Leme  |  29/05/2016 às 13:38

      Bem lembrado. A ação é típica do aparelhamento da Igreja pela esquerda comunista, digna de uma “Associação Apostólica Patriótica Católica Chinesa”, uma falsificação da Igreja Católica que atua na China até hoje, nomeando bispos sem autorização do Vaticano. Nas Américas o aparelhamento se dá de outra forma: pela infame Teologia da Libertação. Leia-se o Decreto contra o Comunismo de Pio XII, sua confirmação por São João XXIII (que confirmou a excomunhão de Fidel Castro), junte-se à infame defesa da Ideologia de Gênero feita pela PJ e julgue-se o que é esta infame pastoral.

      Responder
      • 6. ribeiro  |  31/05/2016 às 12:54

        amigo isso é a margem da ignorância a toda forma, perceba que após as conferencias e o concilio, muito dessa discussão foi superada. a celebração torna-se mergulhada na cultura, sem fetichizações europeia como outrora, agora somos agentes de nosso tempo, quem é contra o temer ou o que considera golpe de uma elite corrupta tem necessidade em falar, não pode ser calado. a cnbb é contra o impedimento, maioria absoluta reconhece este ato como uma estrategia golpista. pare de falar que é infiltração comunista, isso já tá soando burro demais

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


FACEBOOK

Cursos Online no CEBI

Estatísticas do site

  • 18,334 hits

Tópicos recentes

Fotos no Flickr

Twitter CEBI-RS


%d blogueiros gostam disto: