Archive for maio, 2016

Contra a Cultura do Estupro

2016 - Cultura do Estupro 2E eis que, finalmente, a cultura do estupro está em pauta. Infelizmente, a discussão surge a partir de mais um horrível fato, de repercussão nacional e internacional, onde uma adolescente foi vítima da pior forma de violência: o estupro.

Independentemente que tenham sido 30, 10 ou 3 que tenham realizado esse ato, o debate se faz necessário. Por muitas vezes nos indignamos quando em outros países e culturas o estupro é visto como algo comum, “normal” (em alguns casos, é até uma forma de punição legal). Mas não queremos ver ou aceitar que aqui bem debaixo dos nossos olhos há uma cultura do estupro. Tanto é que até o Dep. Marco Feliciano, um dos propositores da PL 6055/2013 (que, na prática, desassiste mulheres estupradas) sentiu-se revoltado com o que deve ter considerado “um caso isolado”.

Fato é que as instituições sociais (família, religião- igreja, escola, mídia e cultura, modo de produção, Estado…) vêm cumprindo uma triste função na sociedade e reproduzindo as relações opressivas e desiguais. Nessa cultura patriarcal em que vivemos, a expectativa em relação aos homens é que haja:
– Diferença em relação às mulheres;
– Superioridade para com os demais;
– Independência e autossuficiência;
– Poder sobre os outros (inclusive violento).

Sempre que olharmos uma menina ou umas mulher e enxergarmos somente um obj2016 - Cultura do Estupro 3eto sexual – isto não dá o direito a ninguém de abusar dela ou estuprá-la. Nada justifica esta violenta ação, nem se as suas roupas são provocantes, ou se o local é apropriado à sua presença, ou se se está acompanhada ou desacompanhada, ou se ela é muito bela, ou feia… nada… absolutamente nada justifica. E a culpa jamais poderá ser da vítima, e sim do estuprador!

Aliás, como alguém já disse por aí, nas redes sociais: “O crime de estupro é o único em que se procura antecedentes criminais da vítima, ao invés de procurar os antecedentes do estuprador”. É triste ver homens e mulheres dizerem não ter nenhuma misericórdia com a menina do Rio de Janeiro, chamada por eles de “marmita de bandido”.

Por isso é urgente ampliar a discussão sobre gênero e equidade. A educação é o melhor caminho para transformar a cultura do poder sobre as mulheres, sobre seus corpos, sobre as suas vidas! Para início de conversa, que tal refletir nossos preconceitos à luz dos dados abaixo?

“Se ela estivesse estudando isso não aconteceria!” – Menina estuprada em escola de São Paulo reconhece agressores: http://glo.bo/1TZ6Ej0

“Se ela estivesse na igreja isso não aconteceria!” – Jovem é estuprada dentro de secretaria de igreja em Brasília: http://migre.me/tY1tn

“Se ela estivesse em casa isso não aconteceria!” – Morre jovem encontrada com sinais de estupro dentro de casa na Zona Norte: http://bit.ly/1qMl4Lu

“Se ela estivesse trabalhando isso não aconteceria!” – Jovem é atacada e estuprada a caminho do trabalho: http://bit.ly/1P19Wpq

“Se ela tive2016 - Cultura do Estuprosse um namorado fixo isso não aconteceria!” – ‘Meu namorado me estuprou por um ano enquanto eu dormia’: http://bbc.in/27UhJvG

“Se ela fosse mais família isso não aconteceria!” – Adolescente com deficiência física é estuprada pelo tio em RR: http://glo.bo/1THnB47

“Se ela fosse menos ‘puta’ isso não aconteceria!” – Menina (de 1 ano e meio) morta em igreja foi violentada: http://bit.ly/1Z3LEM4

“Se ela tivesse mais cuidado isso não aconteceria!” – Jovem é estuprada em estação do Metrô de São Paulo: http://bit.ly/1WnjCgw

29/05/2016 at 18:44 Deixe um comentário

NÃO EM MEU NOME… SEJA LÁ QUAL FOR!

Até que ponto é permitido reproduzir ou anular expressões culturais, políticas ou sociais de outrem? Será sempre necessária a prévia autorização? Ou, no caso da anulação, declaração de incapaz? E se forem coletivas? Quem tem o poder de validar ou invalidar as manifestações de uma comunidade?

Em São Leopoldo, região metropolitana de Porto Alegre, membros das CEBs e da Pastoral da Juventude da paróquia Santo Inácio saíram na fria madrugada de inverno gaúcho da última quinta-feira (26/05/2016) para fazer o tapete de Corpus Christi, tradicional na cultura católica romana. Ato piedoso e digno de simples menção, entre tantas comuns a essa data, não fosse a ousada iniciativa do grupo. Para denunciar o golpe em marcha no país, eles produziram a arte abaixo:

2016 - Golpe Corpus Christi 4

Foto: Neusa Figueira Silva

Dentro de um mundo plural (católico = universal), nada mais profético. Porém, outros membros da mesma paróquia consideraram prudente silenciar o protesto, apagando-o e escrevendo “luz” por cima dele:

2016 - Golpe Corpus Christi 2

Foto: Jéssica F. Gonçalves/Tiago Greff

O tapete conduzia à porta da Igreja central do município (N. Sra. Da Conceição). Poucas horas depois, um dos responsáveis assumiu a autoria pela internet: “Apenas queria deixar claro que isso (essas imagens) foi feito sem autorização. Por isso peço que não vinculem com a paróquia. Nos mantemos neutros quanto a opiniões sobre esse assunto. Esse não era nem momento e nem local para esse tipo de manifestação. Por isso, providências foram tomadas, apagando esse ato vergonhoso”.

O caso lembra um episódio bíblico em que os apóstolos impedem um homem de expulsar demônios em nome de Jesus e depois vêm correndo contar o fato ao Mestre (Mc 9,38). Deviam estar eufóricos. Mas tomam um balde de água fria: “Não o impeçam, pois não há ninguém que faça milagre em meu nome e logo depois possa falar mal de mim. Porque quem não é contra nós é por nós” (vv.39-40). Que tapa de pelica! A resposta traz alguns recadinhos à patrulha da fé: 1) Jesus e sua proposta não precisam de defensores/patrulheiros; 2) Fazer intriga é coisa de gente insegura; 3) O verdadeiro testemunho não se dá por palavras, mas pelos atos (expulsar demônios). De fato, no Evangelho de João está escrito: “Nisso reconhecerão que vocês são meus discípulos e discípulas: se vocês tiverem amor uns pelos outros!” (Jo 13,35). Ele não disse: “se professarem sua fé em mim”; ou: “se andarem com a minha turminha”. Mesmo em Marcos, alguns versículos antes da fofoquinha apostólica, ele diz: “Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último e o servo de todos” (v.35); e emenda: “Quem receber um destes pequeninos por causa do meu nome, a mim recebe; e quem me recebe, não recebe a mim, mas àquele que me enviou” (v.37).

Não resta dúvida: equivoca-se quem pensa prestar culto a Deus silenciando as pessoas que acreditam agir em seu Nome. Quem o faz deveria assumir: é meu nome – e não o de Deus – que está em xeque! Até porque o próprio Cristo nos lembra: “Se Satanás expulsa a Satanás, como poderá subsistir o seu reinado? E se eu expulso os demônios por Beelzebu, por quem os expulsam os vossos adeptos? Por isso, eles mesmos serão os vossos juízes” (Mt 12,26-27).

Vale, ainda, lembrar que o silenciamento é uma das formas de violência e extermínio de jovens. Não é só fisicamente que se mata uma pessoa. Quando sua voz é anulada, é como se ela fosse proibida de existir. Para mudar essa situação, é preciso criar meios de romper com a invisibilidade social. Ao compor “Cálice”, Chico Buarque e Gilberto Gil talvez não imaginassem o sucesso que ela faria como símbolo da resistência contra a ditadura. Registre-se que a reação dos militares contribuiu muito para isso. Mas o mérito mesmo foi dos autores, que burlaram a censura. A linguagem apocalíptica foi eficaz para alimentar tanto a resistência das primeiras comunidades cristãs quanto a da juventude brasileira das décadas de 60 e 70. Essa talvez seja a saída para um novo momento em nosso país, onde a repressão parece querer voltar a todo custo. Quem sabe a imagem logo abaixo nos inspire. Criatividade o nosso povo tem de sobra.

2016 - Golpe Corpus Christi 1

Foto: PJ Nacional

27/05/2016 at 23:32 6 comentários

Primeiros passos CEBI-Uruguaiana

Passados três meses do primeiro encontro assessorado pelo CEBI em Uruguaiana, um núcleo foi criado e já realizou dois encontros, conforme relatado abaixo por Giovani Moreira, um dos articuladores do movimento:

“Nos dias2016 - CEBI 2 20/03 e 17/04 aconteceram o 1º e 2º encontro do Núcleo do Cebi Jovem Uruguaiana. O primeiro encontro abordou a temática sobre a Campanha da Fraternidade Ecumênica 2016, iluminados pelo texto bíblico do profeta Amós: “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Am 5. 24). Já o segundo encontro foi embasado pelos livros de estudo do Cebi, com 2016 - CEBI 5a temática: “Bíblia do povo, sinal de vida”. Foram lindas as partilhas produzidas. O entusiasmo apresentado pelas juventudes presentes, demonstrando querer caminhar mais nessa nova empreitada.

Os encontros, para começo, são realizados junto das juventudes da Associação Utopia. Grupo que trabalha com as juventudes em vulnerabilidade social de Uruguaiana. Daqui para 2016 - CEBI 3frente outros e outras jovens serão convidados e convidas a se juntar nessa caminhada. Passo-a-passo os processos estão acontecendo. Descobrindo o que é o Cebi e como as juventudes populares e o povo de Deus enxergam a Jesus Cristo e como esse Cristo homem se apresentou na história e se apresenta hoje em nossas realidades.”

 
O que se espera é que o grupo cresça e que a Leitura Popular da Bíblia possa ser cada vez mais divulgada e transformadora das diversas realidades do povo gaúcho e brasileiro.

15/05/2016 at 15:26 Deixe um comentário

Pela páscoa de Irene Bohn Gass

Com fé e esperança no Ressuscitado, informamos que faleceu nesta quarta-feira (04/05), em Santo Cristo/RS, Irene, irmã do secretário de formação do CEBI Nacional e membro do CEBI-Vale, Ildo Bohn Gass.

Ela estava doente, mas, mesmo debilitada, manteve sempre a esperança, buscando animar as pessoas que estavam à sua volta. Assim nos relataram o Ildo e o seu irmão, Waldir, também companheiro de caminhada do CEBI-RS.

Queremos nos unir em oração e solidariedade à sua família, que soma, neste momento, a dor pela perda de uma ente querida à revolta, indignação, esperança, amor e tantos outros sentimentos que animam sua luta diária contra os inimigos da democracia brasileira. Seja pela militância popular no CEBI, seja pelo confronto direto no Congresso Nacional (especialmente através do irmão e Dep. Federal, Elvino), a família Bohn Gass tem influência direta nos movimentos de resistência ao golpe em curso no país. Solidárias e solidários, desejamos reafirmar nossa esperança de que um dia estaremos novamente reunidas e reunidos no Reino que o Senhor preparou para nós.

Nas palavras do próprio Ildo: “Amigas e amigos, agradeço a sintonia e a força de vocês nesse momento difícil para a família Bohn Gass. Hoje de manhã (05/05), devolvemos à terra, como boa semente, a minha irmã. Irene tinha 62 anos e veio a falecer depois de dois anos de luta contra um câncer. ‘As pessoas que ensinam a justiça a muitos brilharão, para sempre, como estrelas no céu’ (Dn 12,3). Beijo no coração.”

À família Bohn Gass nosso caloroso e solidário abraço.

Coordenação CEBI-RS

06/05/2016 at 21:21 Deixe um comentário


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