Archive for julho, 2015

Um testemunho de encontro com o Papa na Bolívia

Minha história em Santa Cruz de La Sierra – Bolívia

Adelaide Maria Klein*

IMG-20150716-WA0008Ao atender uma ligação de um grande amigo, Waldir, me convidando para o Encontro dos Movimentos Populares na Bolívia, não poderia jamais imaginar que resultaria numa experiência tão marcante quanto esta vivida durante os dias 5 a 12 de julho. Encontrar com os Movimentos Populares da América Latina, Movimento dos Sem Terra, Pequenos Agricultores, Mov. Atingidos por Barragens, Mov. de Mulheres Camponesas, Via Campesina, Levante da Juventude, Comunidades Eclesiais de Base, Trabalhadores e Trabalhadoras de Artesanato, Recuperação de Fábricas, Movimento Nacional de Luta por Moradia, Quilombolas, Grupos Indígenas, entre outros tantos. Encontrar um indígena Presidente da República Plurinacional da Bolívia, Evo Morales, e encontrar o Papa Francisco, um papa que depois de muito tempo se identifica com os pobres, com os excluídos, devolvendo-lhes a esperança, motivando-os e reforçando a fé num Deus libertador, o “Deus (que) ouviu o clamor de seu povo”, reforçando a “fé revolucionária”!!!

Antes ainda de relatar a minha experiência durante estes dias, não posso deixar de agradecer a solidariedade de amigos e amiga, irmãos e irmã, de perto e de longe que ajudaram a possibilitar financeiramente esta participação.

Foi encantador iniciarmos esta longa jornada de ônibus e ver a diversidade e a riqueza de pessoas e representações. Alguns já se conheciam, mas a maioria não. Uniam-nos os objetivos tão comuns, as mesmas dores por estarmos vivendo aqui no Brasil um retrocesso na conjuntura política, social, mas também os mesmos sonhos de que a nossa força e organização podem construir um outro mundo possível.

IMG-20150716-WA0009Por ser uma viagem longa, por dificuldades de várias ordens, fomos nos superando e solidarizando ainda no caminho, quando um companheiro e uma companheira não puderam entrar na Bolívia, por problemas na documentação, assim permanecendo em Corumbá- MS até a nossa volta.

Ainda no ônibus, ao distribuirmos o material resultado do I Encontro Mundial de Movimentos Populares em outubro de 2014, descobrimos que um dos presentes, o Rodrigo do Levante Popular da Juventude, havia participado deste.

Por conta de alguns encaminhamentos, ou a falta destes, chegamos com um dia de atraso na Bolívia, perdendo a abertura e o primeiro dia de trabalhos (dia 7). Chegamos quase às 3:00h, horário da Bolívia, na escola que nos alojou, Módulo Educativo Humberto Vasquez Machado. Lá nos aguardavam com a janta e para nos encaminhar aos quartos e salas.

O tema do Encontro – Madre Tierra, Techo, Trabajo, Integración de los Pueblos – já nos instigava por si só, pois reunia todas as mazelas da humanidade.

Chegar ao Coliseu (um dos muitos ginásios de esportes) e ver tanta diversidade de povos, etnias, cores e movimentos, ver os olhos de tanta gente brilharem e se motivarem a cada colocação que nos contemplava, mas que também nos desafiava a lutar sempre mais. Em vários momentos, as denúncias de violações de Direitos nos chocavam. Aprendemos também sobre a importância da coca para o povo Boliviano, que a todo momento nos oferecia bons punhados da folhinha, assim IMG-20150716-WA0013como nós gaúchos e gaúchas oferecemos o nosso melhor chimarrão para quem chega ao nosso encontro, para sair revigorado em mais uma andança ou caminhada. Descobrir o significado da linda bandeira colorida, quadriculada a Wiphala, as sete cores, perfeição…. fiquei maravilhada! As trocas de experiências com movimentos de outras regiões e países, ver o povo campesino falar com paixão da terra e do que se produz nela, ou o que está matando a terra e nossa gente.  Nos trabalhos de grupos, levantar as necessidades para as mudanças que são urgentes, o clamor por reforma e repartição das terras, o cuidado com a água que está acabando, os transgênicos que precisam ser barrados, os agrotóxicos que matam toda a vida do planeta, a terra que precisa ser vista muito mais que terra para plantar, para nos pertencer, uma terra que deve ser vista como parte essencial nossa, pois nós é que pertencemos a ela (nunca mais me esquecerei disso). A grande expectativa era absorver todas as contribuições e necessidades para entregar o documento ao Papa Francisco, que embora seja uma das maiores autoridades religiosas do mundo, em nossos sentimentos, era o “Chiquinho”, um de nós, um dos nossos!!! Mas um dos nossos que se dispôs a construir com o povo simples, trabalhador, organizado, que consegue ser criativo e achar soluções e saídas para as necessidades, que são tantas, para que todos e todas tenham vida digna, na sociedade do “Bem Viver”!!!

Por vários momentos a emoção tomou conta de mim ao ver aquelas fileiras de povos nas ruas, que caminhavam com esperança, com gritos de ordem, com canções que animavam e encorajavam a luta e a caminhada para o encontro com o Papa Francisco!!!

A expectativa do encontro com o Papa é algo inexplicável. Por tudo o que ele representa, é diferente de tudo… porque ali tem uma esperança real, uma identificação diferente de outras, uma autoridade que se coloca a serviço, se coloca com os pequenos…. Bem, o povo tentou se atropelar para chegar ao papa, tocá-lo, cumprimentá-lo…. e ele sempre generoso, sorridente, maravilhoso.

IMG-20150716-WA0011As falas do presidente Evo Morales, um estadista muito querido pelo povo boliviano, foram muito aplaudidas, especialmente quando disse: “Aqui na Bolívia Gringo não vem mandar, aqui na Bolívia quem manda são os índios!!!!”

Mas, diante das falas do Papa Francisco ali na Expocruz, meus pensamentos se voltavam ao nosso querido Brasil, ao nosso povo, às nossas comunidades. Tantos problemas, tantas dificuldades, a fase cruel de luta de classes que está fortemente instalada no Brasil, a situação política social que vem num retrocesso de perda de Direitos, as políticas de estado que não têm priorizado e trabalhado para o povo. Lembrei das nossas Comunidades Eclesiais de Base e fiquei pensando se não era necessário fazer acontecer um grande sínodo, mas muito grande, com todo o clero, para absorver nas falas e na prática as mudanças necessárias e tudo o que implica em uma cultura de paz, uma cultura do “Bem Viver” aos cristãos e cristãs!!!

Por várias vezes Francisco repetiu a necessidade de não haver “Ninguna familia sem Techo, Ningún Campesino sin Tierra, Ningún Trabajador sin Derechos”. E a nossa realidade é tão dura… Por isso, muita luta e organização nos aguardam!!!

Saio de Santa Cruz de La Sierra com uma certeza: a Divina Ruah continua soprando o seu Espirito, a sua luz. Onde e quando a gente não sabe, não vê, nada sabe, possibilitando que a “ Fé Revolucionária” e a Esperança renasçam e se fortaleçam sempre!!!

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*Adelaide Maria Klein (ao centro) faz parte do Centro de Estudos Bíblicos – CEBI, CEBs e Movimentos Populares. Foi convidada a representar estas entidades no encontro dos Movimentos Populares com o Papa.

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29/07/2015 at 22:25 Deixe um comentário

Hoje foi a juventude! Amanhã será…

“Não façais da casa de meu pai uma casa de comércio.” (Jo 2,16)

Em tempos onde as matérias de interesse de uma elite opressora são votadas no Congresso até que sejam aprovadas, passando por cima de tudo e de todos, segue uma reflexão de José Luiz Possato Jr., assessor do CEBI-RS, sobre a redução da maioridade penal.

DOS 18 AOS 16: A CHAVE DO NEGÓCIO

FB_IMG_1433042169571[1]Às vésperas de sua votação na Câmara Federal, urge saber se já foi feita a pergunta-chave da questão: a quem serve a redução da maioridade penal? Os defensores querem nos fazer acreditar que estão preocupados com a segurança da população, ou melhor, dos homens (e mulheres?) de bem da nossa sociedade. Mas, diante do histórico de nossa classe política, acreditem: deve haver outra explicação.

Partindo da suspeita de que os políticos sempre defendem seus próprios interesses e os de quem os patrocina, você já parou para se perguntar quem são os doadores de campanha dos apoiadores da redução? Conhece o ramo de atividade de empresas como a Umanizzare Gestão Prisional? Sabe dizer quem lucraria, caso o sistema prisional brasileiro fosse totalmente privatizado, com o aumento da população carcerária?

O Brasil já é uma fábrica de presidiários há algum tempo. Não por acaso, temos a 4ª maior população carcerária do planeta. Se adotarmos a redução, então… Baita negócio (para quem vê isso como um negócio, business), não é mesmo!? Curiosamente, o líder mundial já adota o mínimo de 16 anos em algumas de suas federações, mas estuda aumentar a maioridade penal. Estou falando dos EUA. Os estudos lá apontam que, entre os adolescentes, os tratamentos de reabilitação são mais eficazes do que a punição. Oh, descobriram a América!

As razões para a redução são evidentes. Mas quem liga para razões? Estamos em 33 d.C. A farsa, digo, o tribunal está em sessão. O suspeito é um galileu. Após ouvir as acusações, Pilatos, o juiz, pergunta ao réu: “Sendo tu um zé-ninguém, é verdade que queres ser rei, isto é, um líder independente de Roma?” O sujeito à sua frente, já sabendo qual o veredicto, decide não pactuar com a armação e recusa-se a representar o seu papel, finge esquecer sua fala. Seu silêncio é constrangedor. O tribuno lança uma nova deixa: “O que tens a dizer?” O outro nada responde. A plateia já ameaça umas vaias. Então o roteirista introduz um novo quadro: você decide! Chamam uma nova personagem, um black block. O rapaz foi às ruas manifestar sua indignação, houve um confronto com a guarda romana, alguém disse que ele e seus comparsas estavam bêbados, ninguém soube muito bem como começou a briga, um policial foi mortalmente ferido. E então? Quem vocês querem que eu solte? O baderneiro ali, ou esse outro que quer viver livre do poder romano? A escolha é fácil, pois acusação mesmo só há contra um dos candidatos. Mas quem patrocinou o espetáculo quer ver a execução do outro, o que é contrário ao financiamento das campanhas imperiais. E tudo por quê? Porque o cidadão resolveu denunciar a corrupção e os verdadeiros interesses da bancada sacerdotal. Vai daí que se inicia no meio dos presentes – gente de bem, gente muito séria, mas muito favorável ao status quo – um burburinho. “O fulano é de Nazaré. Diz aí: de lá pode sair coisa boa? Não sei muito bem o que ele fez, mas… e se fosse com o seu filho? Fosse com o meu filho o quê? Sei lá! Mas, e se fosse?” Bastou que um começasse para todos gritarem: “Solte Barrabás!” E o cabeludo? “Crucifique-o!”

Os jovens que hoje estão aí, em vias de serem presos, são também uma denúncia: a constatação de que o Estado falhou. O que resta fazer com quem não tem respeitado o direito à vida? Com quem não tem moradia digna, nem alimentação saudável e balanceada, nem incentivos para o lazer e a prática do esporte, não tem acesso ao espaço público, muito menos educação de qualidade? Melhor encarcerá-los do que mantê-los à vista da gente de bem. Afinal, a consciência só dói quando o problema está à nossa frente. Eles são, enfim, a denúncia de que há pobres em nosso meio. Ora, se eles estão aí é porque há também os que acumulam riqueza. Para estes, não interessa se é razoável a máxima de que o tratamento é melhor do que a punição. Afinal, para que desperdiçar os insumos de um grande negócio à vista?

02/07/2015 at 08:51 Deixe um comentário


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